Lição 02 – O propósito dos dons espirituais – Pr.Wáldson Lima

Lição 02 – O propósito dos dons espirituais – Pr.Wáldson Lima

TEXTO ÁUREO “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer” (1 Co 12.11).

VERDADE PRÁTICA

Os dons do Espírito são dotações espirituais e sobrenaturais concedidas por Deus aos crentes para a edificação da Igreja.

LEITURA BIBLICA 
I Co 12. 1, 4-11, 31; 4. 20,40

INTRODUÇÃO

Os ensinos acerca dos dons espirituais fazem parte das doutrinas da Bíblia, e precisam ser estudados e aplicados constantemente na vida da Igreja, a fim de dirimir as dúvidas e fortalecer a fé na atualidade dos dons. O ponto de partida para a manifestação dos dons espirituais é o batismo no Espírito Santo, que se evidencia com o “falar em línguas”. Esse “falar em outras línguas” é a evidência física da promessa do “dom do Espírito” (At 2.38), que difere da manifestação dos dons para a edificação espiritual coletiva da Igreja.
O propósito de Deus para o uso dos dons Espirituais (I Cor 12:1-11)
Estudar acerca dos dons espirituais é algo extremamente importante e necessário. Principalmente no tempo em que vivemos onde encontramos uma enxurrada de heresias e problemas relacionados aos dons espirituais.
Entre as diversas distorções sobre o assunto podemos destacar:
1) O cessacionismo- É uma visão de alguns estudiosos que acreditam que os dons foram apenas para os tempos apostólicos. Contudo, não temos provas bíblicas, teológicas e históricas consistentes para provarmos essa posição (1 Coríntios 13:10).
2) O abuso dos dons Espirituais – O uso dos dons espirituais como um instrumento de poder, símbolo de status e promoção de ministérios sem esquecer é claro, do ministro.
3) A ignorância de muitos em relação ao propósito e a finalidade dos dons espirituais; Muitos estão completamente alheios aos dons que possuem e ao que a Bíblia realmente ensina sobre os eles e para que servem. Acham que não podem fazer nada na obra do Senhor. Sua auto-estima espiritual está lá embaixo. Os prejuízos para o corpo de Cristo são enormes. De que adianta uma ferramenta poderosa nas mãos de alguém que a desconhece ou não sabe manuseá-la.
4) Falsificação dos dons espirituais – O diabo é astuto e enganador e pode muito bem copiar os dons espirituais a fim de sermos enganados (II cor 11:13-15). Precisamos estar alerta e vigilantes (I João 4:1). Em Mt 7:21-23 Jesus fala de pessoas que exerceram aparentemente dons espirituais mas não eram conhecidos por Ele!
É com base na importância desse assunto que a Bíblia vai tratar dele em vários momentos especialmente em três cartas de Paulo: Romanos12, 1 Coríntios 12 e Efésios 4.11 onde estão as principais listas dos dons.
Em I Cor 12:1 temos a exortação de Paulo é “acerca dos Espirituais (Pneumátikós) não quero que sejais ignorantes” (A palavra dom não aparece aqui no original). Isto aponta para o fato de que o foco de Paulo não esta só nos dons, mas também na vida dos que os tem! Aliás, isto é um princípio extremamente importante que abordaremos no ultimo estudo quando abordaremos o assunto do Carisma x Caráter (Os dons e a vida de que os usa)!
 
O QUE SÃO DONS ESPIRITUAIS?
No sentido geral refere-se a todas as dádivas de Deus por meio de Cristo, como o dom da salvação, da vida eterna, o evangelho; Geralmente, como em atos 2:38 quando vem no Singular se refere ao Próprio Espírito como dádiva ou presente de Deus!
No sentido especifico, refere-se às capacitações dadas pelo ES aos crentes para o desempenho de um serviço cristão e a operação de Deus, tendo em vista o bem estar e o crescimento da igreja (Ef 4.12; I Pe 4.10; I cor 14.12)
Nos versículos v. 4-6 Paulo fala da natureza dos dons espirituais, mostrando que eles têm um tríplice aspecto: São “charismata”, “diakonia” e “energémata” = dons, ministérios e obras. Com isso, Paulo fala sobre: Origem dos dons; o modo como atuam; a finalidade dos dons.
· Quanto à origem dos dons = Os dons são “chamarismata”, manifestação concreta de “charis” graça divina. A graça de Deus é a origem de todo dom. A origem dos dons nunca está no homem, mas na graça de Deus. É errado os crentes querem distribuir os dons. Aliás, nem podemos fazer isso (Atos 8:18-20 Simão, o mago oferece dinheiro para receber o dom do Espirito)
· Quanto ao seu modo de atuar = Os dons são “diaconia”, prontidão para servir. É concentrar não em mim mesmo, mas no outro. É buscar não minha auto-edificação, mas a edificação do meu próximo.
· Quanto à sua finalidade =Os dons são “energémata”, isto é, obras exteriores. A igreja é a continuação histórica da encarnação de Cristo. Somos o corpo de Cristo na terra. A finalidade do dom é a realização de alguma obra concreta, uma ajuda a alguém, a edificação da comunidade.
O QUE A BIBLIA ENSINA SOBRE DONS?
a) Precisamos identificá-los em nossas vidas. Os dons espirituais são capacitações ou ferramentas para o exercício do ministério que o Senhor nos confiou. Além disso, eles apontam para qual o ministério para o qual Senhor nos chamou!
Após a identificação de um ou mais dons na nossa vida, a nossa tarefa não pára aí. Temos de permitir sua operação e procurar crescer neles (1Co 14.1). Também vale a pena lembrar que eles podem ficar adormecidos em nós (II TIM 1:6 “Despertes o dom que há em ti …”
b) Há Diversidade e interdependência de dons – O Espírito Santo intermedia e arruma os dons no corpo para se complementarem uns aos outros. Um músico não pode produzir uma melodia harmônica de uma nota apenas, nem um artista, uma obra prima com uma só cor.
De igual modo, o propósito do Espírito só pode ser cumprido por meio dos vários dons. Eles devem operar em conjunto e em harmonia uns com os outros e não independentemente em divergência e competição.
Nenhum crente possui todos os dons ( I cor 12.29-30). Assim como não há membro auto-suficiente no corpo nem membro sem função. Daí a necessidade de ajuda mútua na Igreja (Rm 1.11-12);
c)É o Espírito Santo quem concede o dom a quem ele quer (I Cor 12.11). O Espírito Santo é livre e soberano na distribuição dos dons. No texto de I cor 12 temos quatro verbos chaves que ilustram essa soberania: no verso 11, “Deus distribui”; no verso 18, “Deus dispõe”; no verso 24, “Deus coordena” e no verso 28 “Deus estabelece”. Do começo ao fim Deus está no controle.
Assim, ele não vem como resultado de busca. Não se compra nem se arranca dele com vigílias de oração em busca de poder. Não são uma medalha espiritual por tempo de serviço ou dedicação espiritual. Não é o crente que decide o dom que deseja ter e o ministério que vai exercer. Ele não deve se achar mais importante porque exercita dons considerados de maior valor.
d) Os dons são para a edificação e a maturidade da igreja – 1Coríntios 12.7 diz isto: “A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum”. Os dons não são para vaidade, obter posição, lucros nem para entretenimento pessoal. Dizer: “eu tenho um dom para meu uso pessoal” é uma expressão que não faz sentido.
Quem tem dons se torna servo dos demais, não senhor. É servo e não mais crente, mais espiritual, mais cheio de poder. Vaidade e dons são incompatíveis.
Quem tem dons deve ser servo, como lemos em 1Pedro 4.10: “servindo uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus”. A doença que John Stott chama de “holofotite” deve ser evitada entre nós. Os dons não são estímulo para ela.
Outros textos como (1Cor 14.26; Efésios 4.11-14) vão reforçar a afirmação de que os dons são para que a igreja seja edificada e chegue à maturidade.
Entretanto, ter dons espirituais e ser maduro espiritualmente são coisas distintas. A igreja de Corinto é uma prova de que é possível ter muitos dons e ainda sim ser imaturo espiritualmente (I cor 1:7 versus I cor 3.1). É possível ter dons notáveis em uma área, mas ser muito imaturo no entendimento espiritual e na conduta cristã. A maturidade vem no decorrer da caminhada cristã e através dos elementos que já trabalhamos em nosso estudo sobre as chaves do crescimento Espiritual: Espírito santo, oração, Palavra de Deus e a Igreja.

e) Os dons são dados para a glória de Deus – Lemos em 1Pedro 4.11: “Se alguém fala, fale como entregando oráculos de Deus; se alguém ministra, ministre segundo a força que Deus concede; para que em tudo Deus seja glorificado por meio de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o domínio para todo o sempre. Amém.”. Deus nos deu habilidades e talentos para que ele seja glorificado, não a pessoa que recebeu o dom.
f) Prestaremos conta a deles a Deus – Somos mordomos ou seja administradores de todos os dons e recursos que Deus nos confiou. De tudo isso prestaremos conta a Deus. Jesus inclusive ilustra esta responsabilidade por meio da Parábola dos Talentos Mt 25:14-30. Assim, não podemos ser negligentes, medrosos ou preguiçosos na obra do Senhor.
g) Promover a unidade do Corpo de Cristo (1 Co 12. 12, 13). Os dons espirituais visam promover a unidade da Igreja no sentido espiritual, mas também socialmente, pois a operação dos dons dinamiza a comunhão entre os crentes. No aspecto físico, o sangue e o espírito são dois elementos que mantém a unidade do corpo humano. O sangue está espalhado em todo o corpo e atinge todos os membros. O espírito não se localiza em determinado órgão, mas está em todo o corpo. Assim sendo, o sangue de Jesus (isto é, a sua eficácia) está em todo o Corpo de Cristo, a Igreja, e o Espírito manifesta- se através dos dons para manter e fortalecer o corpo de Cristo.
h) Promover a diferença e a funcionalidade dos membros do Corpo e Cristo (1 Co 12.14-16,27). A Igreja é um corpo com muitos membros, e todos são indispensáveis para o seu perfeito funcionamento. Cada cristão é parte integrante da Igreja, e os dons são concedidos para o perfeito exercício do corpo; não são independentes e atuam pelo bem dos demais. Cada membro tem a sua função, e quando dotado de um dom espiritual, trabalhará para beneficiar a todos. A diversidade dos dons existe dentro da unidade do corpo (1 Co 12.4). Os dons emanam de uma mesma fonte: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Co 12.4). É Ele quem utiliza os dons conforme a sua soberana vontade. Os dons não são para a exaltação das pessoas, nem para a sua individualização.
i) Promover a pregação do evangelho. Os dons tomam a pregação do Evangelho mais eficaz, pois confirmam a Palavra de Deus que está sendo proclamada (Hb 2.3,4). Infelizmente, muitos utilizam os dons, principalmente os de curar, para atrair multidões. Enquanto isto, a mensagem que leva o pecador ao arrependimento é deixada de lado. De que adianta ser curado no corpo e ter a alma lançada no inferno? A pregação verdadeiramente bíblica e pentecostal é centrada em Cristo e na sua morte na cruz. Cremos na cura divina e na operação de maravilhas. No entanto, este é o maior milagre: o novo nascimento que Deus opera no coração do pecador mediante a ação do Espírito Santo. O compromisso do Espírito é com a “palavra da cruz”, “o evangelho da salvação” (Ef 1.13; 1 Co 1.18).
j) O aperfeiçoamento dos santos (Ef 4.11,12). Os dons contribuem também para o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos crentes. Todavia, para que isso aconteça, temos de utilizá-los com sabedoria. Observemos, pois, a recomendação bíblica quanto ao seu uso: “Mas faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Co 14.40).
DONS X TALENTOS
Os dons podem estar relacionados com os talentos, que são aptidões naturais das pessoas, mas não se confundem com eles. Ambos procedem da mesma fonte, que é Deus, mas os talentos pertencem a velha criação, enquanto que os dons pertencem a nova criação em Cristo. Ambos devem ser descobertos e desenvolvidos (Rm 12.6-8). Ambos devem estar à serviço de Deus.
DONS X FRUTO DO ESPIRITO
O fruto do Espírito são evidências na vida daquele que tem de fato o Espírito Santo. Diferentemente dos dons, que são dádivas e capacitações específicas dadas a cada cristão conforme os propósitos divinos, o fruto é uma conseqüência natural em uma vida constantemente moldada por Deus, de modo que todos os cristãos podem, mediante o “viver pelo Espírito” (Gl 5.16), demonstrar todas as nove virtudes deste fruto. Enquanto os dons estão relacionados ao ministério que temos, o fruto esta relacionado ao que somos!
A ADMINISTRAÇÃO DOS DESPENSEIROS DE DEUS
Os servos do Senhor são cognominados de várias maneiras pelas Sagradas Escrituras. Neste estudo, enfocaremos a figura do “despenseiro”. Veremos, ainda, suas responsabilidades e incumbências. Estas podem ser divididas em quatro categorias de deveres.
1) O despenseiro deve pregar a Palavra de Deus, pois é um administrador dos divinos mistérios, 1 Co 2.2. Esta obrigação tem que ser cumprida de boa mente. 1 Co 9.16-17, 1 Pe 4.10.
2) O despenseiro deve cuidar da casa do Senhor, para prover adequadamente o seu sustento, Mt 24.45. E, isto significa apascentar o rebanho e ter cuidado dele. 1 Pe 5.2,3, At 20.28.
3) O despenseiro deve entregar-se em defesa do Evangelho. Fp 1.16. Pois a Igreja é a coluna e firmeza da verdade, 1 Tm 3.15.
4) E, finalmente, o despenseiro deve administrar os bens materiais da casa de Deus. Rm 15.31.  Foi por isso que Paulo pediu orações à igreja. Rm 15.30,31.
CONCLUSÃO
Os dons são para a edificação e crescimento do corpo de Cristo e não para orgulho pessoal ou divisão na igreja. Deus criou os dons, e deu-os para Sua igreja, para capacitá-la a fim de cumprirem sua missão aqui neste mundo. O desconhecimento ou a não utilização correta dos dons trazem grande prejuízo para a própria vida cristã e para Igreja.
Pessoas talentosas e dotadas de dons em ministérios errados não produzem resultado. Por isso, vamos pedir a Deus sabedoria para continuarmos nesta jornada rumo ao descobrimento das ferramentas e do ministério que o Senhor nos confiou a fim de não sermos infrutíferos em sua obra.
A missão profética da Igreja trata-se da responsabilidade que a mesma tem de ser a portadora da Palavra de Deus, a ser proclamada, divulgada e defendida, não só com palavras, mas, principalmente, com atitudes. A Igreja é a porta-voz de Deus sobre a face da Terra. Ela tem o Espírito Santo (João 14:7), cuja função é guiar a Igreja em toda a verdade, anunciar o que há de vir, bem como glorificar e anunciar tudo o que diz respeito a Cristo (João 16:13,14). Por isso, não pode haver qualquer outro “mensageiro” divino além da Igreja enquanto durar esta dispensação. Quando os cristãos têm consciência que a tarefa primordial da Igreja é a evangelização, passam a entender que sua existência gira em torno desta missão dada a cada crente, que é membro do corpo de Cristo em particular (1Co 12:27). Assim, tudo quanto fizermos nesta vida, em qualquer setor ou aspecto, deve levar em consideração, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6:33).
Subsídio para o Professor
 
INTRODUÇÃO
 
Os Dons Espirituais são recursos indispensáveis para o Corpo de Cristo. Eles contribuem sobremaneira para a expansão e edificação da Igreja. São sempre concedidos aos crentes visando um propósito específico. Qual é este propósito? A edificação de todos os membros do Corpo. Infelizmente, alguns fazem um uso errado dos Dons. Usam-nos para alcançar interesses pessoais. Em vez de glorificar o nome do Senhor, utilizam-se dos Dons a fim de galgar posições eclesiásticas. Muitos não estão mais sendo usados pelo Espírito Santo, mas estão tentando usar o Espírito. Eles estão enganando a si próprios. O Senhor conhece nossos corações e as nossas intenções. Haverá um dia que teremos que prestar contas ao Senhor a respeito do uso dos nossos dons e talentos. Neste dia muitos ouvirão do próprio Senhor a quem tentaram enganar: “… Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:23). Isso é muito sério, amado irmão!
I. OS DONS NÃO SÃO PARA ELITIZAR O CRENTE
1. A igreja coríntia. Ao visitar a igreja de Cristo em Corintos, Paulo relatou que ali havia a manifestação de muitos Dons Espirituais (1Co 1:7). Corinto era uma cidade cosmopolita, marcada pela idolatria, paganismo e imoralidade. Ser um crente fiel naquela cidade não era fácil. Logo, Deus concedeu muitos dons do Espírito Santo àqueles irmãos a fim de que tivessem condições de lutar contra a idolatria, a imoralidade e permanecessem em santidade. Todavia, a igreja de Corinto estava longe de ser uma igreja espiritual. O pecado havia adentrado ali. Paulo chama os irmãos de Corinto de carnais e meninos (1Co 3:1). Fica então a pergunta: O que torna o crente espiritual? Os Dons?. Podemos aprender, por intermédio dos irmãos de Corinto, que não. Quem tem poder para santificar os crentes é o Espírito Santo.
2. Uma igreja de muitos Dons, mas carnal – “E eu, irmãos não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo”(1Co 3:1). Paulo nos conta que a igreja de Corinto usufruía todos os Dons Espirituais. Ainda assim, essa é a única igreja que o apóstolo chama de “carnal, como crianças em Cristo” (1Co 3:1).
Quando Paulo inicia a carta de 1Corintios, reconhece, no capítulo primeiro, que Deus havia abençoado a igreja com toda sorte de bênçãos espirituais, de Dons Espirituais, ao ponto de “não lhes faltar dom nenhum”. Corinto era uma igreja carismática no sentido bíblico da Palavra, ou seja, tinha os “carismas” do Espírito de Deus, os Dons, através dos quais desenvolvia seu serviço prestando culto a Deus e cumprindo a sua missão neste mundo.
Mas, Satanás sempre trabalha para que o povo de Deus não triunfe em união, na unidade de seus membros, na oração, na vigilância, no exercício da pregação do evangelho, em fim, ele sempre artimanha para que a igreja perca o caráter de Cristo e se desvie dos padrões de conduta condizente com a lei moral e espiritual de Deus. Foi o que aconteceu com a igreja de Corinto, que com menos de três anos de fundada começou a desviar-se dos padrões de conduta e de doutrina que o apóstolo havia estabelecido por ocasião de sua fundação. A igreja tinha carisma, mas não caráter. Tinham dons, mas não piedade. Era uma igreja que vivia em êxtase, mas não tinha um testemunho consistente. Tinha uma liturgia extremamente viva, pentecostal, mas a igreja não tinha a prática do evangelho. Faltava amor entre os crentes e santidade aos olhos de Deus. Era uma igreja de excessos, onde faltava ordem e decência.
Alguém, de forma sucinta, descreveu a situação daquela igreja da seguinte maneira: “A igreja estava no mundo, como deveria estar, mas o mundo estava na igreja, como não deveria estar”. Esta é situação comum em muitas igrejas de hoje, infelizmente.
A seguir, mostramos alguns problemas que demonstram o quanto essa igreja era carnal:
a) Problemas de unidade (1Co 1:10 – 4:21). Paulo soube que havia divisões na igreja, que estava dividida em 4 grupos. Grupos que se formaram em torno de personalidades, de pessoas que tinham tido uma participação no passado recente da igreja, como o próprio Paulo e Apolo (1Co 3:4). Havia até um grupo que talvez fosse o mais perigoso deles que era o “Grupo de Cristo” – “… e eu, de Cristo” – 1Co 1:12. Eles diziam que não eram seguidores de homem algum e sim de Cristo. Era como se dissessem: não queremos estar debaixo da orientação ou da instrução e autoridade de qualquer homem porque recebemos tudo diretamente de Cristo. Alguns estudiosos têm identificado este grupo como o “grupinho dos espirituais” que falavam em línguas e gloriavam-se por terem experiências extraordinárias; que não aceitavam a autoridade de Paulo na igreja, e outras coisas mais.
b) Problemas morais e disciplinares (1Co 5:1 – 6:20).
– Relação incestuosa (1Co 5:1). Um homem vivia com sua madrasta e que era do conhecimento de todos, como se vê nas palavras de Paulo: “Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade…” (1Co 5:1). O que mais incomodava o apóstolo Paulo era a falta de uma atitude firme por parte da igreja com relação àquela pessoa. Ou seja, a igreja deveria constatar queconduta moral e espiritualidade são duas coisas que andam juntas. Temos de ter as duas coisas; e quando temos uma e não a outra, ou a espiritualidade é falsa ou a moralidade é falsa. Mas a genuína espiritualidade exige uma conduta de acordo com as verdades do evangelho.
– Problema de litígio (1C0 6:1-6). Havia um irmão que estava processando outro num tribunal secular. Aqueles irmãos não chegaram a um acordo, e talvez por questão de terra ou talvez de dinheiro e negócios, este irmão estava em litígio com outro. Por isso estava processando-o no tribunal da cidade. Com esta atitude estava expondo o Evangelho à vergonha diante dos ímpios (1C 6:6).
– Prostituição religiosa. Havia um grupo que estava voltando à prática da prostituição religiosa (1Co 6:18-19), o que era comum na cidade de Corinto. Isso era praticado nos templos onde se cultuava a deusa Afrodite.
c) Problemas com casamento e divórcio (1Co 7). Devido ao fato de a prostituição e a imoralidade serem comuns, os casamentos em Corinto estavam sendo destruídos, e os cristãos não estavam certos de como deveriam reagir. Paulo deu respostas diretas e práticas.
Com base nestas demonstrações de carnalidade da igreja de Corinto, a despeito de possuir todos os dons listados por Paulo, nos conscientizamos de que “as manifestações espirituais na igreja local não são propriamente indicadoras de seriedade, espiritualidade e santidade”. Uma igreja onde predomina estes tipos de pecado, “nem de longe pode ser chamada de espiritual, e sim de carnal”.
3. Dom não é sinal de superioridade espiritual. O culto tem três aspectos: Deus é adorado, o povo de Deus é edificado e os incrédulos são convencidos de seus pecados. Se formos à igreja para adorar com o propósito de demonstrarmos a nossa espiritualidade, estaremos laborando em erro. O culto é para a edificação e não para exibição. Mas a igreja de Corinto estava transformando o culto num palco de exibição em vez de um canal para edificação.  Ela tinha todos os Dons (1Co 1:7), não lhe faltava Dom algum, porém, ela tentou colocar o Dom de “Variedade de Línguas” como o Dom mais importante, como um símbolo de status espiritual. (1)
É importante ressaltar que os Dons espirituais não são aferidores de espiritualidade. Você não mede a espiritualidade de uma igreja pela presença dos Dons espirituais nela. Se você fosse medir o grau de espiritualidade de uma igreja pelos Dons, a igreja de Corinto seria campeã de espiritualidade, pois tinha todos os Dons; mas a realidade dessa igreja era outra: era uma igreja carnal (1Co 3:1).
Alguns cristãos em Corinto haviam recebido o Dom Espiritual de Línguas. Em vez de usar este Dom para engrandecer a Deus e edificar outros cristãos, empregavam-no para se exibirem. Levantavam-se durante os cultos, falavam em línguas que ninguém entendia e esperavam que os outros ficassem impressionados com sua proficiência linguística. Exaltavam os Dons de sinais acima de outros Dons e afirmavam que quem possuía o Dom de línguas era espiritualmente superior aos outros irmãos. Essa atitude gerou orgulho e inveja e levou outros membros da congregação a sentirem-se inferiores e sem valor. Paulo julgou necessário, portanto, corrigir as atitudes equivocadas e estabelecer mecanismos de controles para o exercício dos Dons, especialmente de línguas e profecia.
Os tempos mudaram, mas os mesmos erros do passado ainda estão sendo repetidos nas igrejas contemporâneas.  Muitos acham que os portadores de Dons Espirituais são crentes superiores aos demais, que têm um nível maior de espiritualidade e que, em razão disto, desfrutam de uma posição diferenciada no meio da comunidade. Este pensamento, inclusive, tem feito com que muitos crentes andem à procura destes irmãos a fim de que obtenham curas divinas, maravilhas, sinais ou profecias, num comportamento totalmente contrário ao que determina a Palavra de Deus, que ensina que os sinais seguem os crentes e não os crentes correm atrás de sinais (Mc 16:17,20). Os Dons do Espírito Santo são concedidos pela graça de Deus, pela sua bondade e misericórdia, apesar dos nossos deméritos.
II. EDIFICANDO A SI MESMO E AOS OUTROS
Deus concede Dons, primeiramente para a edificação, consolação e exortação da igreja, e também para o enriquecimento da vida espiritual de seu portador(1Co 14:1-4).
1. Edificando a si mesmo. “O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo…” (1Co 14:4). Aqui, Paulo nos leva a entender que o Dom de Língua não visa à edificação da igreja, mas a própria intimidade com Deus da pessoa detentora deste Dom. Seu propósito não é a edificação da igreja, mas a auto-edificação. É por essa razão somente que este Dom é inferior aos demais Dons. Todos os outros Dons alistados na Bíblia são Dons para edificação da Igreja; o Dom de Língua é único concedido para edificação própria do usuário.
O contexto indica que o apóstolo não defende o uso desse Dom para auto-edificação.Pelo contrário, refuta qualquer forma de uso do Dom na igreja que não resulte na edificação dosoutros. O amor pensa nos outros, e não em si mesmo. Se for usado em amor, o Dom de Línguas beneficiará os outros, e não apenas o indivíduo que fala.
Portanto, a pessoa que ora em “língua estranha” para a sua edificação pessoal deve fazê-lo entre si mesma e Deus, não devendo fazê-lo em voz alta durante o culto público, porque, embora esteja se fortalecendo, ela não fortalece a mais ninguém.
2. Edificando os outros, até mesmo o não crente. Paulo preocupava-se sobremaneira com a edificação de todos os que estão na igreja no momento do culto. No Novo Testamento não há uma pessoa que mais estimulou a igreja a buscar os Dons Espirituais como o apóstolo Paulo. Todavia, prezava pela devida ordem no culto. Os Dons Espirituais têm como objetivo precípuo a edificação da igreja.
Paulo não despreza o Dom de Línguas; sabia que ele é uma dádiva do Espírito Santo e jamais rejeitaria algo proveniente do Espírito. Quando diz em 1Corintios 14:5 – “E eu quero que todos vós faleis línguas estranhas” -, ele renuncia a qualquer intenção egoísta de limitar o Dom apenas a si mesmo e a um pequeno grupo de favorecidos. Seu desejo é semelhante àquele expressado por Moisés: “Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito“(Nm 11:29b). Porém, ao fazer essa afirmação Paulo sabia que não era da vontade de Deus que todos os cristãos tivessem um mesmo Dom(cf 1Co 12:29-30). Ele preferia que os corintos profetizassem, pois, ao fazê-lo, edificariam uns aos outros, enquanto que se falassem em línguas sem interpretação seus ouvintes não entenderiam e, portanto, não seriam beneficiados. Paulo prefere a edificação à exibição. Se alguém fala em outra língua, deve orar para que a possa interpretar, ou para que alguém a possa interpretar (cf 1Co 14:13).
Na igreja de Corinto, se não houvesse interprete, o irmão devia permanecer calado na igreja. Podia ficar em seu lugar e falar silenciosamente em outra língua consigo mesmo e com Deus, mas não tinha permissão de se expressar em público(cf 1Co 14:28). Essa exortação deve ser bastante usual para os nossos dias, em nossas igrejas!
III. EDIFICAR TODO O CORPO DE CRISTO
Os Dons Espirituais não foram dados à Igreja para projeção humana nem como aferidor para medir o grau da espiritualidade de uma pessoa. Os Dons foram dados para a edificação do Corpo de Cristo. Pelo exercício dos Dons a Igreja cresce de forma saudável. Assim, os Dons são importantíssimos e vitais para a Igreja. Eles são os recursos que o próprio Espírito Santo concedeu à Igreja par a que ela pudesse ter um crescimento saudável e também suprir as necessidades dos seus membros.
1. Os Dons na Igreja. O apóstolo Paulo nos induz a entender que quando os Dons são utilizados com amor, todo a igreja é edificada. Todos nós sabemos da influência destacada que o amor tem em termos de um desenvolvimento emocional sadio das crianças. Se isto é válido para a família humana, quanto mais será para a família de Deus! Esta é a razão da inclusão de 1Coríntios 13 entre os capítulos 12 e 14, que tratam dos Dons Espirituais.
Os Dons do Espírito são dados todos para o serviço, para a edificação do Corpo de Cristo, mas eles devem ser exercidos em amor, para que produzam o resultado desejado, isto porque sem o amor todos os Dons são sem valor, não importa quão espetaculares sejam (1Co 13:1-3). Desta forma, o amor é o “caminho sobremodo excelente“, mais valioso até que os Dons mais elevados (1Co 12:31).
2. Os sábios arquitetos do Corpo de Cristo. “Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo“ (1Co 3:9-11).
A Igreja é o “Edifício de Deus“. Todos os servos de Deus são companheiros de trabalho nesse “Edifício”, ou melhor, todos os servos de Deus são colaboradores que pertencem a Deus e trabalham uns com os outros para o bem do Edifício de Deus, que é a Igreja.
Paulo descreve sua participação no início da congregação em Corinto: “pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento“. Ele diz que foi a Corinto para pregar Cristo e este crucificado. Uma igreja se formou nessa cidade como resultado da conversão de muitos cidadãos, por intermédio da sua pregação. Na sequência, Paulo acrescenta: “E outro edifica sobre ele”. Trata-se, sem dúvida, de uma referência a outros mestres que visitaram Corinto subsequentemente e construíram sobre o alicerce que já havia sido lançado naquele local. Contudo, o apóstolo adverte: “mas veja cada um como edifica sobre ele“.
O exercício do ministério de ensino na igreja local é algo extremamente sério! Alguns mestres haviam passado pela igreja de Corinto ensinando doutrinas divisivas e princípios contrários à Palavra de Deus. O fundamento da Igreja é Jesus Cristo (At 4:11; Ef 2:20; 1Pe 2:6). Ele é a Pedra sobre a qual a Igreja está edificada (Mt 16:18). A Igreja não poderia ser edificada sobre Pedro nem sobre Paulo, porque tanto Pedro quanto Paulo eram efêmeros. Eles passaram, mas Cristo permanece para sempre. Portanto, qualquer que edificar sobre Este fundamento deve ter muito cuidado. O fundamento pode ser forte, mas vários materiais podem ser escolhidos no processo de edificação.
Hoje, nós estamos vendo igrejas embriagadas pelo sucesso, pelos resultados. Elas querem quantidade a qualquer custo. Para encher os templos, os pregadores mudam a mensagem e oferecem um evangelho sem exigências. A riqueza do Evangelho é sonegada e também substituída pelas novidades do mercado da fé. As pessoas gostam de espetáculo e gostam de novidades. Elas não têm discernimento para identificar os perigos e os riscos das heresias que entram disfarçadamente dentro das igrejas. É nesse contexto que Paulo mostra que a igreja precisa construir e se edificar, mas com qualidade. Deus não está interessado apenas em número, ele quer vida.
3. Despenseiros dos Dons. Nós somos “despenseiros da multiforme graça de Deus“, e recebemos a ordem para sermos “bons despenseiros“. Diz o apóstolo Pedro: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4:10). Aqui, o apóstolo exorta a igreja sobre como o Dom de Deus deve ser administrado. Na verdade, ele destaca o uso altruísta dos Dons de Deus a serviço de outras pessoas; mais prioritariamente de toda a Igreja. Nesta mesma linha de exortação, o apóstolo Paulo diz: “Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos” (1Co 12:7, BJ). Dessa forma, os despenseiros de Deus – ministros ou membros da igreja -, precisam ter muito cuidado no uso dos dons concedidos pelo Senhor para provisão, alimentação espiritual e edificação.
Portanto, cada cristão deve colocar o Dom que recebeu a serviço de todos, porque, ao receberem Dons, os cristãos se tornam “despenseiros da graça de Deus“. A charis (graça) é a fonte dos“charismatas” (dons, carismas). Quem os recebe, recebe a graça de Deus. Assim, ter um Dom Espiritual é como ter um “depósito da graça”, que deve extravasar. É válido ressaltar que o cristão é alguém que é discípulo de Jesus, o Senhor que se fez Servo e veio ao mundo não para ser servido, mas para servir (Mc 10:45); Ele, que usou a bacia e a tolha como seus distintivos. Muitos hoje estão precisando aprender esta doutrina: “da bacia e da toalha”.
CONCLUSÃO
“A Igreja de Jesus Cristo tem uma missão que transcende a esfera humana, pois recebeu a incumbência de fazer com que a “”… multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef 3.10). Sua Missão, na Terra, é a proclamação do Evangelho, num mundo hostil às verdades de Cristo; um mundo que rejeita a Palavra de Deus. Diante dessa realidade, a Igreja precisa de poder sobrenatural. Os Dons Espirituais são um arsenal à disposição da Igreja para o cumprimento eficaz de sua Missão na Terra”. (2)

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